“Carga tributária faz setor pet operar abaixo do potencial”, aponta relatório de 2026 da Abempet

Relatório mostra desaceleração do crescimento global e alerta para o impacto dos impostos que há mais de duas décadas afetam a competitividade da indústria pet brasileira

O mercado pet brasileiro encerrou 2025 com faturamento de R$ 77,96 bilhões, representando crescimento de 3,56% em relação ao ano anterior (R$ 75,4 bilhões).

A desaceleração em relação aos anos anteriores reflete uma tendência global observada após o forte avanço registrado no período pós-pandemia. Os dados fazem parte do estudo de Faturamento e População Pet no Mundo – 2026 elaborado pela Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet), que projeta crescimento de 4,21% para 2026.

E a carga tributária segue como um dos maiores desafios para que o mercado pet brasileiro alcance todo o seu potencial produtivo, além de fatores como inflação, câmbio e desaceleração do consumo. Para exemplificar, a valorização do dólar influencia diretamente o custo de ingredientes básicos utilizados pela indústria, especialmente no segmento de pet food.

Esse cenário se intensifica em mercados como o Brasil, onde a tributação do setor varia entre 30% e 51% conforme o estado — um patamar significativamente superior ao praticado em economias concorrentes: Estados Unidos (8% a 10%), União Europeia (15% a 18%) e China, que implementa políticas ativas de estímulo ao mercado pet.

“O setor pet segue sólido, mas os resultados refletem os desafios econômicos globais e o peso da alta tributação sobre os produtos e serviços do setor. Ainda assim, os indicadores demonstram que o setor mantém crescimento consistente em diferentes frentes, incluindo faturamento, população pet e exportações — apesar das barreiras que o contêm”, aponta Caio Villela, CEO da Abempet.

Desse modo, o setor pet nacional, mesmo na leitura positiva dos seus números, opera abaixo do seu potencial — em grande parte por conta de uma carga tributária entre as mais altas do para o setor, que há mais de duas décadas pressiona preços, encarece o capital de giro e inibe investimentos em toda a cadeia produtiva. Esse cenário de disfunção econômica é ancorado na alta tributação e na elevada taxa de juros do país.

“Os dados da pesquisa realizada pela Abempet mostram que o setor pet segue demonstrando consistência e capacidade de adaptação, mesmo em um cenário econômico mais desafiador. O vínculo cada vez mais forte entre pessoas e animais continua impulsionando o mercado, especialmente em segmentos ligados à qualidade de vida, nutrição e bem-estar dos animais.

“Carga tributária segue como
um dos maiores desafios para
que o mercado pet brasileiro
alcance todo o seu potencial
produtivo”

Ao mesmo tempo, o Brasil mantém uma posição estratégica no cenário global, tanto pelo tamanho da sua população pet quanto pela relevância e competitividade da sua indústria”, diz Caio.

Um estudo econômico apresentado em Brasília, em 2024, demonstrou que a redução da carga tributária do setor pet poderia elevar a produção industrial para até 9 milhões de toneladas anuais — dobrando a capacidade produtiva —, impulsionar o consumo pelas famílias e gerar um aumento estimado de até 210% na arrecadação de tributos.

“Este estudo foi encomendado pela então Abinpet, hoje Abempet, durante as discussões da Reforma Tributária, para avaliar os impactos econômicos de um eventual reconhecimento da essencialidade dos alimentos para cães e gatos. A proposta era responder uma pergunta simples: quais seriam os efeitos para as famílias, para a indústria e para a economia caso esses produtos tivessem um tratamento tributário mais compatível com sua importância? As projeções indicaram que uma tributação mais equilibrada poderia ampliar o acesso dos consumidores à alimentação adequada para seus pets, estimular a produção nacional, fortalecer toda a cadeia produtiva e gerar impactos positivos para a economia e para a arrecadação”, explica Caio.

A redução dessa carga, pleiteada por anos pelo setor, e não contemplada na Reforma Tributária, é uma alavanca para a economia.

Um exemplo é o segmento de pet food, onde a arrecadação tributária saltaria de R$ 6,3 bilhões em 2024 para R$ 19,6 bilhões em 2034 no cenário de alíquota reduzida — R$ 3,2 bilhões a mais do que os R$ 16,4 bilhões projetados sem mudança.

Tributar melhor significa obter preços mais acessíveis aos consumidores, aumentando assim o consumo, mais produção, mais empregos e, no fim, mais receita para o Estado.

O setor tem tamanho, tem mercado e tem potencial. Falta remover o principal obstáculo ao seu crescimento.

“O setor pet possui características que historicamente lhe conferem resiliência, sustentadas pelo vínculo cada vez mais forte entre responsáveis e pets e pela crescente preocupação com saúde e bem-estar animal. Ainda assim, o desempenho do setor continuará condicionado ao ambiente macroeconômico e à evolução de temas relevantes para sua competitividade, como infraestrutura, tributação, ambiente regulatório e acesso a mercados”, diz Caio Villela, CEO da Abempet.

“O setor pet não é consumo supérfluo. O reconhecimento da sua essencialidade é uma discussão de política pública. As medidas públicas precisam ser coerentes: estimular o cuidado, não encarecê-lo. 2026 é o ano do reconhecimento; 2027, o momento da revisão justa da Reforma Tributária”, afirma José Edson Galvão de França, presidente do Conselho Gestor da Abempet.

FATURAMENTO POR SEGMENTO

O pet food mantém sua posição dominante, representando 52,86% do faturamento total (base no 1º trimestre de 2026). Os demais setores também registram crescimentos expressivos: pet vet avança 5,09%, serviços gerais 5,23% e serviços veterinários 4,65%, demonstrando a crescente diversificação e sofisticação do setor.

“O setor pet não é consumo supérfluo. O reconhecimento da sua essencialidade é uma discussão de política pública”, diz José Edson Galvão de França, presidente do Conselho Gestor da Abempet.

CANAIS DE ACESSO AOS PRODUTOS E SERVIÇOS

Os pet shops (pequenos e médios) lideram os canais de acesso com 48% do faturamento total, consolidando sua posição como principal ponto de venda do setor. Na sequência, as clínicas e hospitais veterinários representam 17,4% do faturamento, seguidos pelas megastores (9,5%), varejo alimentar (8,6%) e e-commerce (8,5%).

COMÉRCIO ELETRÔNICO PET

O e-commerce pet movimenta R$ 6,91 bilhões (8,5% do faturamento total do setor). Dentro do canal digital, o e-commerce puro lidera com 38,5% das vendas online, seguido pelos pet shops megastore (32,0%) e pelos pet shops pequenos e médios (19,5%).

POPULAÇÃO PET NO BRASIL

Atualmente, a China lidera o ranking mundial de população pet (mais de 438 milhões de animais), seguida pelos EUA, com mais de 290 milhões. O Brasil ocupa a terceira colocação pet mundial, com 166,8 milhões de animais.

Houve crescimento de 2,33% em relação a 2024. Quando o recorte é a produção e consumo de alimentos para pets, o Brasil avança para a segunda colocação global.

A tendência de crescimento dos gatos se destaca tanto no Brasil quanto no mercado internacional. No cenário global, a população felina avançou 2,3% em 2024, enquanto os cães cresceram 1,9%. No Brasil, o crescimento é ainda mais expressivo: os gatos registraram alta de 4,5%, consolidando a espécie como principal impulsionadora das categorias de pets — tendência diretamente ligada à urbanização e aos espaços menores nas grandes cidades.

O país também mantém posições estratégicas em outras categorias: possui a segunda maior população de aves canoras e ornamentais do mundo (44,3 milhões de aves), reforçando sua relevância na cadeia global do setor pet.

Em termos de distribuição de pets nas regiões brasileiras, o Sudeste concentra 48,2% da população pet nacional (80,4 milhões de animais), seguido pelo Nordeste (23%, 38,4 milhões), Sul (17,8%, 29,7 milhões), Centro-Oeste (7,2%, 12 milhões) e Norte (3,8%, 6,3 milhões).

EXPORTAÇÕES: FORÇA BRASILEIRA EM CONTEXTO GLOBAL

O primeiro trimestre de 2026 apresentou desempenho positivo nas exportações brasileiras do setor pet. Comparando janeiro a março de 2026 com o mesmo período de 2025, o valor total exportado pelos 22 NCMs monitorados foi 9% superior.

O segmento de pet food lidera amplamente as exportações, representando 90,14% do total exportado, seguido por pet care (8,90%) e animais vivos (0,96%). Essa concentração demonstra a força e competitividade da indústria brasileira em um segmento de alto valor agregado.

No cenário de importações, Áustria, Estados Unidos e China concentram cerca de 70% do valor total importado pelo Brasil. Entretanto, quando se compara o primeiro trimestre de 2026 com o primeiro trimestre de 2025, observa-se uma redução expressiva de 36% no valor das importações de todas as origens — reflexo da substituição por produção local.

Fonte: Euromonitor / Elaboração Abempet

PREVISÕES FUTURAS

Para 2027, como teremos eleições em vista no ano de 2026, as previsões ainda não podem ser traçadas. “É comum que o período pós-eleitoral traga maior previsibilidade ao ambiente econômico e institucional, o que pode favorecer o planejamento das empresas. No entanto, ainda é cedo para afirmar qual será o cenário de 2027, uma vez que ele dependerá da evolução de fatores como inflação, taxa de juros, renda das famílias, câmbio e das políticas econômicas que vierem a ser adotadas”, aponta Caio.

“O principal conselho que deixo para as empresas é que elas mantenham o foco na gestão, na eficiência e na capacidade de adaptação. O mercado pet brasileiro continua evoluindo, e os consumidores estão cada vez mais exigentes. Investir em inovação, qualificação das equipes, conhecimento do cliente e planejamento de longo prazo tende a fortalecer a competitividade. Também é fundamental acompanhar as mudanças regulatórias e tributárias, pois elas podem gerar oportunidades, mas também exigir rápida adaptação das empresas”, finaliza Caio.

Por Samia Malas

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