Uso de insetos no Pet Food: um ingrediente com muitos benefícios

Mais proteico e amigo do meio ambiente, novo ingrediente tem sido cada vez mais usado por fabricantes de Pet Food

Foto: Tomasz Klejdysz/iStock
A Black Soldier Fly (BSF – Hermetia illucens), é a principal espécie
utilizada em larga escala para formulações de pet food

A busca por alternativas de ingredientes mais sustentáveis no segmento alimentar permitiu que a indústria se voltasse a novas possibilidades e recursos. Um deles, que vem ganhando destaque e visibilidade no segmento pet food, é o uso de insetos como fonte proteica de petiscos e rações extrusadas. Este ingrediente é utilizado há mais tempo em fórmulas de alimentos para animais exóticos mantidos como pets, como peixes, aves e répteis, e de forma mais recente para alimentar cães e gatos. Estudos, como o publicado por pesquisadores holandeses na *Science Direct em agosto de 2025, comprovam que o uso de insetos na alimentação gera uma menor pegada ambiental quando comparados com fontes de proteína convencionais – como aves e bovinos. *Acesse o estudo na íntegra: doi.org/10.1016/j.jclepro.2025.146240 Nele, a fabricação da ração ProteinX (da empresa holandesa Protix) foi analisada e revelou-se que a sua produção reduz as emissões de CO2 em 78% em comparação à farinha de aves e em 89% em relação ao concentrado de proteína de soja. O produto também apresentou 20,4% menos emissões de CO2 do que a farinha de peixe e 52,6% menos do que a farinha de soja. Como resultado, nos últimos 5 anos, temos experimentado lançamentos de produtos no mercado brasileiro de pet food que se beneficiam deste avanço. “No Brasil, a Black Soldier Fly (BSF-Hermetia illucens) ou Mosca Soldado Negro, é a principal espécie utilizada em larga escala para formulações de pet food. É a única com cadeia produtiva estruturada, regulamentação clara e eficiência comprovada em conversão nutricional”, aponta Philippe Bekes Camargo, fundador da Protin Biotech, que há 5 anos atua na área de biotecnologia de insetos, e da BugLovers, de São Paulo, SP, que desenvolve petiscos para pets e suplementos à base BSF há 1 ano e meio.
Bruno Multedo, diretor executivo e fundador da Comida de Dragão, fundada em 2021, em Cachoeiras de Macucu, RJ, utiliza as larvas da BSF nas duas famílias de produtos iniciais, os petiscos e os suplementos, porém, em novembro de 2025, lançou um alimento completo para répteis e anfíbios (o Grub), onde incluíram o grilo e o tenébrio, além da BSF. “Estes insetos têm diferenças específicas em concentração proteica, nível de digestibilidade e proporção de aminoácidos, além dos ácidos graxos, que também possuem concentrações diferentes, onde a BSF se destaca com o ácido láurico (um poderoso antioxidante natural). O ponto central é que todos têm alta concentração proteica, com alta digestibilidade de aminoácidos essenciais, propriedades antimicrobianas e antioxidantes, função pré-biótica, em resumo, um boost de saúde para qualquer animal”, descreve.
Mauro Ávila, CEO e CMO da !nsect Protein, empresa gaúcha de Campo Bom, RS, fundada em 2022, aponta que são a única empresa no Brasil certificada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para processar o Tenébrio Molitor (mealworm), mas que a larva da Mosca Soldado Negro é a que, no momento, conseguiu atingir uma escala industrial. “Reconhecemos que a BSF está na frente em questão de escala, mas temos recebido consultas de vários players do mercado e até de fora do Brasil interessados no tenébrio e em produtos que contenham esta proteína. O tenébrio é conhecido por seu alto teor de proteína (53%) e gordura (30%), se comparado com outras proteínas, possui um perfil de aminoácidos similar ao do Whey Protein e sua gordura é rica em ômega 3 e 6. Em vários países o tenébrio é a principal ou até mesmo a única proteína de inseto permitida para a alimentação humana. Grilos (como o Gryllus assimilis) são comuns em pesquisas para alimentação humana, mas também têm potencial para o mercado pet”, acrescenta.

VANTAGENS
Philippe explica que, além dos benefícios nutricionais já citados, a proteína da Mosca Soldado Negro possui excelente palatabilidade. “Os cães e gatos adoram!”, enfatiza. Ainda segundo ele, a criação de insetos é uma das formas mais eficientes de transformar resíduos orgânicos em proteína e fertilizante natural. “O processo tem baixa emissão de carbono, consome pouca água e requer mínima área produtiva. Além disso, a proteína de BSF é exclusiva para uso animal (exceto ruminantes), evitando competição com proteínas destinadas ao consumo humano – o que traz um forte benefício socioeconômico e de segurança alimentar”, acrescenta Mauro.
Bruno ainda destaca que os insetos, em especial a BSF, transformam comida desperdiçada – que iriam parar em um aterro sanitário ou lixão ao céu aberto, destruindo o meio ambiente – em um novo alimento, à base de inseto, e em um biofertilizante, chamado de Frass. “A gordura da BSF não é do tipo que fica retida no corpo do animal. Ela queima muito rapidamente aumentando o nível de energia disponível para o pet. Além disso, ela potencializa o sistema imunológico, regula a microbiota intestinal, ajuda nas feridas de pele em função de alergias, o pelo fica mais vistoso e cai muito menos, dentre vários outros benefícios, e, a cereja no bolo, ela é sustentável”, comenta.
Mauro aponta que a sustentabilidade é o pilar central da proteína do tenébrio, com diversos pontos positivos. Além dos já citados, ele acrescenta: “o tenébrio é alimentado com farelo de trigo, que é um subproduto dos moinhos de trigo e, como fonte de umidade, usamos legumes que não possuem valor comercial, tudo isso vira uma proteína de altíssimo valor nutricional; é a eficiência alimentar, pois insetos são ‘animais de sangue frio’ que convertem um subproduto de baixo valor nutricional em proteína de forma muito eficiente. O principal benefício é produzir proteína de alta qualidade com um impacto ambiental drasticamente reduzido”. Mauro enfatiza que uma das maiores vantagens da proteína do tenébrio é o fato dela ser hipoalergênica, uma vez que muitas alergias alimentares em pets são causadas por proteínas comuns (frango, carne bovina ou cordeiro). “Como a proteína do tenébrio é uma fonte ‘nova’, o sistema imunológico do animal não a reconhece como alérgeno, tornando-a ideal para pets com alergias ou sensibilidade digestiva. Inclusive, este nicho é o nosso principal mercado hoje, fornecemos para vários donos de pets alérgicos”, diz, ao ressaltar a qualidade nutricional dos tenébrios: “contém 17 dos 20 principais aminoácidos e 8 dos 10 aminoácidos essenciais que cães e gatos precisam, rica em minerais (fósforo e zinco), gorduras antioxidantes saudáveis e alta digestibilidade, sendo uma proteína tão (ou mais) digerível quanto as proteínas tradicionais de alta qualidade”, diz Mauro.

“A proteína de BSF é exclusiva para uso animal (exceto ruminantes), evitando competição
com proteínas destinadas ao consumo humano – o que traz um forte benefício
socioeconômico e de segurança alimentar”
diz Philippe Bekes Camargo, da Proti n Biotech e BugLovers

MANEJO DE INSETOS
Mauro também aponta que garantir o bem-estar dos insetos desde a criação até o abate é um debate ético e científico muito atual e que está ganhando força, especialmente na Europa. “Não há um consenso científico de que os insetos tenham ‘consciência’ ou sintam dor (nocicepção) da mesma forma que os mamíferos. No entanto, a pesquisa é complexa e muitos cientistas e reguladores estão adotando o ‘princípio da precaução’: na dúvida, deve-se assumir que eles podem sofrer. Nós aplicamos práticas de criação que evitam o estresse, pois o estresse afeta o crescimento. Isso inclui controle de densidade populacional, temperatura, umidade e alimentação adequada. Por uma questão de Boas Práticas de Fabricação de Alimentos, abatemos por congelamento, isso porque o inseto hiberna em baixas temperaturas, então ele acaba dormindo e depois morre”, compartilha Mauro.
Philippe explica que, na Protin, adotam protocolos de bem-estar porque o desempenho das larvas está diretamente ligado à qualidade do ambiente. “Nosso processo de pré-abate é exclusivo no País: as larvas passam por uma fase controlada de jejum e redução gradual de temperatura, o que estabiliza o metabolismo e evita a liberação de enzimas de estresse que poderiam afetar o valor nutricional. Em seguida, o abate é realizado por imersão em água quente, método instantâneo que assegura inativação imediata e preservação das propriedades funcionais da proteína”, revela.

Foto: divulgação
“Os insetos não irão substituir as fontes tradicionais, mas serão uma alternativa
de alta nutrição para mitigação do impacto ambiental gerado por elas”
diz Bruno Multedo, da Comida de Dragão

DESAFIOS
O principal desafio para o crescimento deste mercado ainda é educacional e cultural. “É necessário capacitar médicos-veterinários e zootecnistas sobre formulação e prescrição, além de treinar distribuidores e lojistas para comunicar corretamente os benefícios. O responsável, por sua vez, tende a aceitar após entender a origem e ver a reação positiva do próprio pet – a aceitação animal costuma ser imediata”, diz Philippe.
A grande dificuldade é a barreira psicológica envolvendo insetos como fonte de alimento, aponta Bruno. “Ela está presente em todas as pessoas no Ocidente, principalmente no Brasil. Essa barreira, pelo que já identificamos, reside muito na falta de informação que temos sobre insetos”, diz. Mauro corrobora que o “fator nojo” (Ick Factor) do responsável pelo pet é o maior desafio. “Os animais não se importam (e adoram o sabor), mas os donos dos pets projetam seu próprio nojo de insetos na comida. Para isso, nossa comunicação com o cliente é toda com um viés educativo e temos visto que, com o passar dos tempos, o ‘fator nojo’ está reduzindo”, diz. Outro ponto apontado por ele, é que, embora a aceitação esteja cada vez maior no mercado pet, ainda é um desafio convencer o consumidor final a trocar a ração tradicional por uma à base de insetos. “Por isso estamos sempre buscando participar de pesquisas acadêmicas de forma a validar nossa solução e apontarmos a sua segurança alimentar tanto para animais de estimação como para humanos”. A regulamentação (burocracia) é outro entrave.“ Embora o MAPA tenha avançado, o processo para aprovar novos ingredientes e novos processos de produção pode ser lento e complexo. Além disso a Anvisa ainda não possui estudos para garantir a segurança alimentar de insetos para humanos o que ajudaria a validar e diminuir a repulsa do cliente”, acrescenta.

Foto: divulgação
“A nossa expectativa é que, com o aumento da escala, automação e otimização da produção, o custo
direto da proteína de inseto caia e se torne competitivo com as fontes tradicionais”
diz Mauro Ávila, da !nsect Protein

CUSTO-BENEFÍCIO
Bruno aponta que, hoje, o preço das farinhas de inseto no atacado ainda está muito caro comparado aos preços praticados pelas proteínas tradicionais. “Os insetos não irão substituir as fontes tradicionais, mas serão uma alternativa de alta nutrição para mitigação do impacto ambiental gerado por elas. Devido ao custo por quilo mais elevado, o nível de inclusão nas rações para animais ainda é muito baixo. A boa notícia é que a concentração nutricional é tão alta que mesmo com um baixo nível de inclusão, os benefícios em saúde do animal de estimação são visíveis”, destaca.
À medida que o mercado escala, Philippe aponta que a proteína de BSF se torna mais competitiva em custo, mantendo padrão premium. “Diferentemente de proteínas animais convencionais – cujo preço e disponibilidade variam –, a BSF entrega constância, digestibilidade elevada, perfil de aminoácido completo e sabor atrativo” , explica o empresário.
Mauro aponta que esta indústria ainda está amadurecendo, assim, conseguir produzir em larga escala (toneladas) para competir em preço com as indústrias estabelecidas (como a de soja, ou frango) é um grande desafio industrial. “Hoje, a farinha de tenébrio é, na maioria dos casos, mais cara do que as fontes de proteína tradicionais. Isso acontece porque a indústria tradicional é massiva, otimizada por décadas e, em muitos casos, subsidiada. O ‘custo-benefício’ da proteína de inseto está no valor agregado e no longo prazo: ela compete no segmento premium e super premium (hipoalergênico, sustentável); custo ambiental da proteína tradicional é muito maior (externalidades); e o preço dos insetos tende a ser mais estável, pois não depende tanto de commodities agrícolas ou de variações climáticas. A nossa expectativa é que, com o aumento da escala, automação e otimização da produção, o custo direto da proteína de inseto caia e se torne competitivo com as fontes tradicionais. Por isso mesmo estamos tentando captar investimentos para podermos escalar e automatizar etapas do nosso processo produtivo”, finaliza Mauro.

Por Samia Malas

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