Mercado de exóticos e silvestres: setor de serviços em alta
Confira algumas oportunidades e novidades que têm surgido no setor de serviços para pets não-convencionais, peixes e aves

Nos últimos anos temos experimentado um crescimento de diferentes demandas, produtos e serviços neste setor de pets não-convencionais, peixes e aves. Segundo a médica-veterinária Catharina Fonseca Coelho, pós-graduada em Clínica e Cirurgia de animais exóticos e selvagens e proprietária da Clínica Vet Exóticos, de Camboriú-SC, houve um crescimento significativo no setor através da demanda crescente por novos produtos e serviços personalizados para pets não-convencionais, como treinamento individualizado e consultas comportamentais.
“Existe um crescente interesse por serviços de bem-estar e saúde, como terapia alternativa para animais, programas de nutrição e enriquecimento ambiental especializado. Esses novos serviços refletem um desejo maior dos proprietários de oferecer um cuidado mais completo e adaptado às necessidades individuais dos seus pets”, completa. Porém, para Catharina, a área que mais cresceu é a de serviços veterinários especializados para pets não-convencionais. “A demanda por consultas de especialistas, emergências veterinárias e serviços de saúde dedicados a espécies como répteis, aves e pequenos mamíferos está aumentando. Esse crescimento é impulsionado pela busca dos proprietários por cuidados mais detalhados e por profissionais com conhecimentos específicos para tratar esses animais”, opina. Em decorrência a esta maior demanda, a oferta de cursos e congressos para a formação de médicos-veterinários no setor também aumentou. “O mercado veterinário para pets não-convencionais está em expansão, tanto em termos de educação quanto de oportunidades de trabalho. A quantidade de cursos e especializações disponíveis para veterinários está crescendo, com uma oferta maior de programas focados em animais exóticos e cuidados especializados. A demanda por profissionais da área está aumentando, e há uma variedade de oportunidades de emprego em clínicas especializadas, instituições de ensino e centros de conservação. A evolução do mercado reflete o crescente interesse e a necessidade de especialistas em medicina voltada para estes animais”, afirma Catharina.

Letícia Andrade, de São Caetano do Sul-SP, é formada em auxiliar veterinária para pequenos animais e animais silvestres e proprietária do hotel especializado em pets não-convencionais e aves Letty Sitter. Segundo ela, após a pandemia, as pessoas começaram a sentir mais a necessidade de ter um bicho em casa e foram descobrindo que há mais possibilidades do que cães e gatos. “E isso é muito bom, pois a variedade de espécies permite que a pessoa opte pela que se encaixa melhor na sua rotina e personalidade. A minha decisão de abrir o hotel veio de um atendimento onde eu precisava ficar na casa do cliente em horário comercial para cuidar de todos os diversos animais que ele tinha, dentre eles, um ganso que encantou a internet com sua doçura e acabou me trazendo muita visibilidade no universo de pets não-convencionais”, compartilha Letícia.

“Existe um crescente interesse por serviços de bem-estar e saúde, como terapia alternativa para animais, programas de nutrição e enriquecimento ambiental especializado […] Com um foco estratégico e inovação, o mercado de pets não-convencionais pode, sim, ser bastante lucrativo” diz Catharina Fonseca Coelho, da Clínica Vet Exóticos
A profissional é babá de pets desde 2019, mas em 2022 começou a se especializar no setor de pets não-convencionais para atender somente a esta demanda. O hotel Letty Sitter é o primeiro da região a se dedicar somente aos pets não-convencionais, porém outros já surgiram Brasil afora. “Eu acho isso ótimo, pois sei que essa demanda só cresce a cada dia”, comenta Letícia, que oferece os serviços de hospedagem, corte de unhas, limpeza de ouvidos, limpeza perineal, escovação, banho e tudo que envolve a manutenção do pet hospedado. “Minha demanda maior sempre foi ade mamíferos como coelhos e porquinhos-da-índia, acredito que por serem animais mais fáceis e baratos de adquirir e mais populares também. Mas com o investimento na estrutura voltada para hospedagem de aves tenho notado a demanda para elas aumentar absurdamente. Acredito que deve-se ao fato de as pessoas estarem investindo em bem-estar e se preocupado comas atividades e interação que a ave terá. Então faz sentido para elas investir num hotel com área externa de voo e brinquedos naturais para que a ave tenha o máximo de conforto e atividade enquanto o tutor viaja”, afirma Letícia.

“Minha demanda maior sempre foi a de mamíferos como coelhos e porquinhos-da-índia […] mas com o investimento na estrutura voltada para hospedagem de aves tenho notado a demanda para elas aumentar absurdamente” diz Letícia Andrade, do hotel especializado em pets não convencionais e aves Letty Sitter.
Luana Desie, médica-veterinária do Consultório Das Aves, de São Paulo-SP, aponta que percebeu uma grande mudança no comportamento do tutor da ave em especial, o que fez com que o mercado tivesse crescimento e novas demandas por conta desta evolução. “As pessoas, hoje, estão muito mais conscientes e não tratam mais sua ave pet como um enfeite na gaiola. Agora as aves estão mais presentes nas famílias e são tidas como membros delas. Os tutores destes animais estão mais envolvidos no mundo das aves, se preocupam com a alimentação e a saúde dos pets, e com o enriquecimento ambiental, cognitivo e alimentar. Eles chegam, inclusive, muito mais informados no meu consultório”, descreve a médica-veterinária, que em sua formação conta com pós-graduação em bem-estar e comportamento de animais silvestres.
Luana também percebe que a realização de exames em aves, como raio-x, exames de sangue e ultrassom, têm crescido, inclusive o serviço de hotelzinho para pássaro, que ela também oferece. “Porém, ainda temos poucos profissionais capacitados para a área, mesmo que este número esteja crescendo, principalmente nos últimos 3 anos”, acrescenta a veterinária.
Andrey Naves, diretor de comunicação da Federação Ornitológica do Brasil (FOB), criador de aves exóticas há 15 anos e fundador da BIRDTV (noYoutube), diz ser impressionante o crescente número de pessoas interessadas no assunto. “Percebo isso através das redes sociais e do contato diário com os criadores e empresas do nosso setor, no Brasil e no mundo. São centenas de mensagens todos os dias de pessoas querendo iniciar uma criação de aves ou tê-las como animais de estimação. Ou até mesmo de criadores mais experientes que compartilham deste entusiasmo, resultando em novas iniciativas que fomentam esse crescimento”, revela. Ainda segundo ele, quando uma pessoa compra uma ave, ela também comprará uma gaiola, alimentos, brinquedos, acessórios etc., mas tudo começa no criadouro, que é a base do mercado. “Neste sentido, a criação de psitaciformes tem se destacado por conta do excelente potencial pet das espécies e do engajamento que estas interações geram nas redes sociais”, diz.

“Respeitar a fisiologia, a anatomia, o comportamento do animal para manejar corretamente, saber segurar o animal, ter todo um cuidado com a questão do manejo no atendimento. Tudo isso envolve o conceito bird friendly” diz Luana Desie, do Consultório das Aves
Larissa Rocha, especialista em Assuntos Regulatórios da Poytara, concorda que o setor de saúde animal também se beneficiou da humanização dos pets, que além de atender o público mais comum como cão e gato, agora está se estendendo também para pets não-convencionais, com um aumento nos serviços veterinários de ponta, incluindo cuidados preventivos, tratamentos especializados e até mesmo terapias alternativas como acupuntura e fisioterapia. “Serviços como banho e tosa, massoterapia, aromaterapia e até mesmo spas para pets não-convencionais estão começando a se difundir. O uso de tecnologia no cuidado com pets está em ascensão, com dispositivos vestíveis que monitoram a saúde e a atividade dos animais, comedouros automáticos, câmeras de vigilância e aplicativos de saúde animal. Há também uma crescente demanda por produtos sustentáveis e ecologicamente corretos por parte dos consumidores”, revela.

“Com o estímulo necessário, até mesmo dos órgãos ambientais (como prevê as entidades internacionais), teríamos um crescimento muito maior do que já existe hoje em dia nos setores de aves e pets não-convencionais” diz Andrey Naves, diretor de comunicação da FOB
DESAFIO NO SETOR DE AVES E EXÓTICOS
Embora aves e pets não-convencionais somados percam apenas para os cães no Brasil, ainda há um longo caminho a percorrer para garantir que recebam toda a atenção e cuidados que merecem. “Muitas vezes, a oferta de produtos e serviços é mais limitada em comparação com cães e gatos. O que falta para atender melhor os pets alados é uma maior diversidade de alimentos especializados, acessórios de enriquecimento e serviços veterinários especializados para aves. Aumentar a educação e conscientização sobre as necessidades específicas das aves também é crucial para melhorar o bem-estar desses animais”, revela Catharina, que na Vet Exóticos, as espécies que ela mais atende são as aves, como papagaios e calopsitas. “Além disso, répteis como iguanas e cobras estão ganhando espaço, com um número crescente de pessoas interessadas em tê-los como pets. Esse crescimento pode ser visto como um reflexo do aumento no interesse por animais exóticos e da maior disponibilidade de informações sobre cuidados especializados”, acrescenta a médica-veterinária. “Os mercados de cães e gatos e de pets não-convencionais possuem dinâmicas diferentes, mas ambos têm potencial de lucro. O mercado de cães e gatos é mais maduro e estabelecido, enquanto o mercado de pets não-convencionais está em expansão e atraindo um público crescente. A chave para explorar esse potencial é entender as necessidades específicas desses animais e oferecer produtos e serviços de alta qualidade. Com um foco estratégico e inovação, o mercado de pets não-convencionais pode, sim, ser bastante lucrativo”, revela Catharina.
Já Andrey acredita que, com o estímulo necessário, até mesmo dos órgãos ambientais (como prevê as entidades internacionais), teríamos um crescimento muito maior do que já existe hoje em dia nos setores de aves e pets não-convencionais. “É triste pensar que em um país continental e megabiodiverso como o Brasil, registra-se menos criadores que na Holanda, por exemplo. Isso não diz respeito apenas ao mercado que poderíamos ter, gerando milhares de empregos e criando novas oportunidades. Mas também o quanto mais essa atividade poderia ajudar no combate ao tráfico de animais silvestres através da oferta legal, comprovadamente uma das melhores ferramentas para conservação da biodiversidade”, argumenta Andrey, que continua: “infelizmente a maioria das espécies são consideradas exóticas e silvestres, possuindo um burocrático controle por parte dos órgãos ambientais que acabam por desestimular os criadores”. “Percebo, cada vez mais, que as pessoas têm investido para melhorar a qualidade de vida desses animais, visando respeitar e incentivar os comportamentos naturais de cada espécie, mas ainda há muito a ser feito para melhorar ainda mais este cenário. Infelizmente ainda vemos aves com asas cortadas, comendo semente de girassol como base da alimentação e vivendo em gaiolas minúsculas”, opina Letícia.
Outra questão abordada por Luana é o conceito bird friendly, que precisa ser mais difundido no mercado veterinário, bem como entre os tutores de aves de estimação. “Muito se fala do atendimento do cat friendly, mas a ave também precisa de ambiente preparado para ela, que tem que ser calmo, neutro, não pode ter cão latindo ao lado, cheiros, pois tudo pode interferir nos parâmetros do exame da ave. Respeitar a fisiologia, a anatomia, o comportamento do animal para manejar corretamente, saber segurar o animal, ter todo um cuidado com a questão do manejo no atendimento. Tudo isso envolve o conceito bird friendly”, destaca.

“Serviços como banho e tosa, massoterapia, aromaterapia e até mesmo spas para pets não-convencionais estão começando a se difundir” diz Larissa Rocha, especialista em Assuntos Regulatórios da Poytara
ALERTA AOS RISCOS SANITÁRIOS
O aumento no número de pets não-convencionais nos lares traz à tona alguns riscos importantes, tanto sanitários quanto ambientais, ressalta Catharina. “Doenças zoonóticas, como a psitacose em aves, são uma preocupação, e os donos devem estar cientes de como prevenir e tratar essas doenças. Além disso, os habitats inadequados podem levar a problemas ambientais, como a liberação de espécies invasivas e a contaminação do ambiente com resíduos não tratados. Para mitigar esses riscos, é fundamental que os proprietários invistam em cuidados veterinários regulares e em condições adequadas para os animais, além de seguirem orientações sobre manejo e higiene”, finaliza a médica-veterinária.
Por Allahil Bolivar Vianna Neto



