Copa do Mundo pode virar ouro para pet shops que entenderem o novo comportamento do consumidor

Enquanto as grandes redes trabalham campanhas nacionais padronizadas, o pequeno lojista consegue criar conexão local e transformar a loja em parte da experiência da comunidade durante o torneio

Foto: Imagem de freepik

O varejo pet brasileiro ainda comete um erro recorrente quando o assunto é sazonalidade. Boa parte das lojas concentra praticamente toda sua estratégia comercial em datas tradicionais, como Natal, Black Friday e Dia das Mães, enquanto ignora eventos de enorme apelo emocional e alto potencial de consumo coletivo, como a Copa do Mundo. Em 2026, esse comportamento pode custar vendas importantes para quem deixar passar a oportunidade mais uma vez.

A Copa do Mundo movimenta o consumo em praticamente todos os setores porque altera a rotina das famílias. O brasileiro transforma os jogos em eventos dentro de casa, organiza reuniões, compra comida, bebida, decoração e produtos relacionados ao momento. E existe um detalhe que muitos empresários do setor pet ainda não perceberam completamente. O pet hoje faz parte dessa experiência familiar. Ele está presente na sala durante o jogo, participa da rotina da casa e ocupa um espaço emocional muito diferente daquele de alguns anos atrás. É justamente aí que surge a oportunidade para os pet shops.

O tutor que compra itens para receber amigos em casa também pode consumir produtos voltados ao pet naquele mesmo contexto. Snacks, petiscos, brinquedos interativos, acessórios temáticos e produtos voltados ao bem-estar do animal durante dias de maior movimentação são categorias que ganham enorme potencial nesse período. O problema é que muitos lojistas ainda enxergam a Copa como um evento distante da realidade do setor pet, quando, na verdade, ela conversa diretamente com o comportamento atual do consumidor.

A Copa do Mundo de 2026 acontece entre os dias 11 de junho e 19 de julho, com o Brasil jogando na fase de grupos nos dias 13, 19 e 24 de junho. Isso significa mais de um mês de oportunidades comerciais para lojas que conseguirem trabalhar estratégia, antecipação e comunicação de forma inteligente. E o ponto mais importante é que o resultado não depende necessariamente de grandes investimentos. Muitas vezes, pequenas ações bem executadas já conseguem gerar impacto relevante no fluxo e no ticket médio da operação.

Em 2022, acompanhamos de perto alguns pet shops que estavam em consultoria durante a Copa do Mundo. O padrão observado foi muito claro. As lojas que se prepararam com antecedência conseguiram aumentar o giro de categorias normalmente menos exploradas, principalmente snacks, petiscos e acessórios. Já os lojistas que deixaram para agir na última hora praticamente perderam a venda para supermercados, marketplaces e lojas de conveniência.

Muitos empresários esperam a data chegar para decidir o que fazer, mas o comportamento do consumidor não funciona assim. Quando o jogo começa, a decisão de compra já aconteceu. O tutor comprou bebida, carvão, decoração e petiscos dias antes, durante a preparação para receber amigos e familiares. Se o pet shop não apareceu nesse momento, perdeu espaço na jornada de consumo daquele cliente.

Outro equívoco bastante comum é acreditar que trabalhar sazonalidade significa apenas decorar a loja ou publicar uma promoção nas redes sociais. Na prática, o que realmente gera resultado é estratégia de mix, posicionamento de produtos, exposição inteligente e comunicação antecipada. Um simples combo de snacks próximo ao caixa, uma vitrine temática bem organizada ou uma campanha no WhatsApp da base de clientes podem gerar impacto muito maior do que ações genéricas feitas sem planejamento.

Existe ainda um ponto extremamente importante que favorece justamente os pequenos e médios pet shops. Diferentemente das grandes redes, o varejista de bairro possui proximidade real com o cliente. Ele conhece o nome do animal, entende os hábitos da família e consegue criar uma comunicação muito mais personalizada e emocional. Em eventos como a Copa do Mundo, isso faz enorme diferença.

Enquanto as grandes redes trabalham campanhas nacionais padronizadas, o pequeno lojista consegue criar conexão local e transformar a loja em parte da experiência da comunidade durante o torneio. Essa capacidade de relacionamento talvez seja hoje a maior vantagem competitiva do pet shop indeindepAbinpet mercado pet brasileiro deve movimentar mais de R$ 80 bilhões em 2026, segundo projeções da Abinpet, e parte desse crescimento está diretamente ligada à humanização dos animais de estimação. O consumidor deixou de comprar apenas produtos básicos e passou a buscar experiências, conveniência e formas de incluir o pet nos momentos importantes da rotina familiar. Isso explica, inclusive, movimentos recentes da própria indústria global. A Adidas, por exemplo, lançou uma linha oficial de uniformes da Copa adaptados para pets em diferentes países, reforçando que esse comportamento já é percebido internacionalmente.

Mas existe um cuidado importante. Trabalhar sazonalidade não significa comprar produtos sem critério ou apostar em grandes estoques. Um dos maiores riscos dessas datas é justamente errar na quantidade e acabar com mercadoria parada após o evento. O segredo está muito mais na inteligência comercial do que no volume. Planejamento de compra, exposição correta e leitura de comportamento são fatores muito mais relevantes do que simplesmente ampliar estoque.

No fim das contas, a Copa do Mundo escancara uma transformação maior que já está acontecendo no varejo pet. Hoje, as lojas que mais crescem não são necessariamente as que apenas vendem produtos, mas aquelas que conseguem se conectar emocionalmente com o estilo de vida do consumidor.

O pet shop que entender que o tutor quer incluir o animal nos momentos importantes da vida vai enxergar oportunidades onde os concorrentes ainda veem apenas um campeonato de futebol. E, em um mercado cada vez mais competitivo, perceber movimentos de comportamento antes dos outros pode ser exatamente o que separa crescimento de estagnação.

Por Ricardo de Oliveira

Foto: divulgação

Ricardo de Oliveira é especialista em negócios pet e fundador da Fórmula Pet Shop, referência em capacitação e consultoria estratégica para pet shops no Brasil. Com mais de 10 anos de atuação no setor, acompanhou a abertura de mais de 70 pet shops e capacitou mais de 8.700 empreendedores por meio de mentorias e treinamentos.

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