Pequenos pet shops são ameaçados pela concentração e pela corrida das assinaturas no setor pet

A competitividade do setor está em risco, e os pequenos negócios precisam encontrar um caminho para não ficarem à margem

Foto: Imagem de tirachard no Freepik

A aprovação da fusão entre Petz e Cobasi pelo CADE, em junho de 2025, não é apenas um dado de mercado, é um marco que redefine as regras do jogo no setor pet brasileiro. A criação desse gigante sem precedentes, celebrado como estratégico para expansão e inovação, revela uma tendência clara de concentração que exige atenção redobrada. Mais do que números bilionários, esse movimento revela um ponto notável: a competitividade do setor está em risco, e os pequenos negócios precisam encontrar um caminho para não ficarem à margem.

Por um lado, grandes redes estruturam ecossistemas completos, com planos de saúde animal, logística integrada, aplicativos próprios e estratégias de marketing digital. Todavia, os pequenos pet shops, que representam 98% das empresas do setor, segundo dados do Sebrae, permanecem à margem dessa transformação, operando de forma tradicional e sem acesso às ferramentas mínimas de gestão.

O contraste é nítido e preocupante. Empresas como Petlove, Petz e Cobasi oferecem desde ração, areia para gatos e antiparasitários até serviços de banho, tosa, creche e acupuntura em modelos de assinatura recorrentes. Essas redes investem pesado em tecnologia, CRM, aplicativos de agendamento e programas de fidelidade, criando uma experiência de consumo integrada que fideliza clientes e aumenta a previsibilidade de receita.

Em contrapartida, milhares de microempreendedores sequer possuem sistema de gestão ou plataformas pagamento recorrente automatizado. O resultado é uma disparidade tecnológica que coloca os pequenos em situação de vulnerabilidade, os tornando dependentes de marketplaces e limitando sua capacidade de competir de forma justa. Além do impacto econômico direto, a concentração de mercado ameaça a diversidade do setor. A falta de concorrência tende a reduzir a variedade de serviços e produtos, afetando consumidores e limitando inovações locais.

Diante disso, pequenos empreendedores, muitas vezes protagonistas de iniciativas criativas e atendimento personalizado, correm o risco de desaparecer ou de se tornar apenas fornecedores terceirizados para grandes redes. A sustentabilidade do setor pet, portanto, depende não apenas do crescimento das grandes empresas, mas da capacidade de todos os envolvidos, grandes e pequenos, de inovar e se adaptar às novas demandas do mercado.

O segredo não está em competir de igual para igual com as gigantes, mas em começar de forma simples e estruturada. Mesmo os pequenos precisam contar com sistemas de gestão acessíveis que permitam criar modelos de assinatura, controlar a recorrência de pagamentos e acompanhar de perto o comportamento dos clientes. Um plano básico, como “2 banhos por mês” ou “ração entregue em data fixa”, já pode transformar a previsibilidade do caixa e fidelizar clientes de maneira consistente.

Para dar o primeiro passo, é preciso escolher um serviço ou produto de alta recorrência no pet shop, como banho, ração ou antiparasitário, por exemplo. A partir disso, criar uma oferta clara para os melhores clientes, automatizar a cobrança no sistema de gestão e acompanhar os resultados. Essa primeira estrutura abre espaço para ampliar gradualmente a estratégia para outros itens e, em paralelo, conectar-se a grupos de empreendedores ou mentorias que ofereçam suporte estratégico e tecnologia já testada no setor.

Sendo assim, garantir um setor pet equilibrado exige atenção às desigualdades tecnológicas e à concentração de poder. Somente com acesso à inovação, suporte estratégico e capacitação contínua os pequenos empreendedores poderão competir de forma justa, manter sua relevância e contribuir para uma cadeia mais equilibrada e diversa.

Ricardo de Oliveira é especialista em negócios pet e fundador da Fórmula Pet Shop, empresa referência em capacitação e consultoria estratégica para pet shops em todo o Brasil. Com mais de 10 anos de atuação no setor, Ricardo já acompanhou a inauguração de mais de 70 pet shops, orientando desde a escolha do ponto comercial até o mix de produtos, layout e estratégias de marketing. À frente da Fórmula, já capacitou mais de 8.700 empreendedores por meio de mentorias, treinamentos e consultorias, se consolidando como uma das principais vozes na profissionalização do varejo pet nacional. Sua experiência prática e visão de negócio ajudam empreendedores a saírem do amadorismo e construírem empresas lucrativas e sustentáveis.

Por Ricardo de Oliveira

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