Produtos super premium avançam no setor de pets não convencionais

A chamada premiumização chega também neste nicho do mercado pet e com força total

Foto: Anna-av/iStock

A onda da “premiumização”, que transformou o mercado de cães e gatos nos últimos anos, rompeu as barreiras dos pets tradicionais e agora avança com força total sobre o segmento de aves, peixes e animais exóticos. Impulsionado por tutores hiperconectados e dispostos a investir alto em nutrição de precisão e bem-estar animal, o nicho de pets não convencionais deixou de ser uma seção tímida nas prateleiras para se transformar em um setor alta mente lucrativo. Para os proprietários de pet shops, essa mudança de comportamento do consumidor exige muito mais do que apenas repor o estoque das lojas: demanda uma reestruturação estratégica que vai do treinamento técnico da equipe de vendas ao design das gôndolas do pet shop.

“Durante muito tempo, peixes ornamentais, aves, répteis e pequenos mamíferos foram vistos como pets de menor investimento. Hoje, esse cenário mudou significativamente. A principal transformação veio da evolução do comportamento do tutor, que passou a enxergar esses animais também como membros da família e, consequentemente, a buscar produtos que proporcionem mais qualidade de vida, longevidade e bem-estar. Esse movimento impulsionou a demanda por alimentos desenvolvidos com maior rigor nutricional, ingredientes de alta qualidade e tecnologias capazes de atender às necessidades específicas de cada espécie. O consumidor deixou de buscar apenas um alimento básico e passou a valorizar formulações capazes de pro mover saúde, desenvolvimento, bem-estar e maior longevidade. No aquarismo, essa mudança é ainda mais evidente. O aquarista moderno entende que a alimentação influencia diretamente aspectos como crescimento, coloração, reprodução, resistência ao estresse e qualidade de vida dos peixes. Por isso, a decisão de compra passou a ser guiada pela confiança na marca, na composição do alimento e nos resultados percebidos no aquário”, revela Larissa Rocha, especialista em assuntos regulatórios da Poytara, empresa que faz parte desta transformação de cuidados com o pet não convencional.

Ainda segundo ela, em um período em que o mercado nacional ainda oferecia poucas opções de alimentos de alto desempenho, a Poytara foi uma das empresas pioneiras na introdução do conceito de alimentação super premium para peixes ornamentais, contribuindo para elevar o padrão da nutrição no aquarismo brasileiro. “Hoje, acreditamos que a ‘premiumização’ dos produtos deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade consolidada no segmento.

O consumidor está mais informado, mais exigente e entende que investir em uma alimentação de qualidade é uma das formas mais eficazes de promover saúde, bem-estar e longevidade para seus animais. Nesse cenário, nosso papel é continuar inovando e contribuindo para a evolução do mercado pet, oferecendo soluções que unem ciência, tecnologia e respeito às particularidades de cada espécie”, acrescenta Larissa. Paulo Augusto R. Machado, diretor técnico da Megazoo, lembra que a empresa foi pioneira na produção de alimentos super premium para esse segmento, o que ocorreu há 26 anos. “Fomos motivados por alguns fatores, como o fato de serem animais que consomem, relativamente, pouco alimento, especialmente se comparado com cães e gatos. No caso de aves, por exemplo, você tem espécies que consomem 5g de alimento por dia, répteis ainda menos, porque eles têm um baixo consumo energético por serem silotérmicos”, explica Paulo. Ainda segundo ele, outro ponto é que estes animais são de altíssimo valor ecológico e financeiro também. “Nós temos casos de aves extremamente caras, muito mais caras até do que cães e gatos de raça. Então, você tem uma relativização muito grande de baixo consumo com alto valor. Esses são os principais fatores que nos motivaram a sermos pioneiros na produção de alimentos super premiuns no país”, revela o consultor da Megazoo.

CATEGORIAS DE PRODUTOS

A alimentação continua sendo o principal motor de inovação dentro desse mercado de pets não convencionais, aponta a especialista Larissa Rocha. “Cada vez mais observamos a procura por alimentos desenvolvidos para espécies específicas, fases da vida, hábitos alimentares e objetivos nutricionais distintos. O consumidor passou a valorizar ingredientes de alta digestibilidade, proteínas selecionadas, vitaminas, minerais e processos produtivos capazes de preservar melhor os nutrientes. Mais do que atender às exigências nutricionais básicas, a alimentação dos animais de estimação caminha para um conceito de nutrição funcional”, diz.

Larissa ainda acrescenta que o mesmo movimento ocorreu na alimentação humana, em que cresce o desenvolvimento de formulações capazes de oferecer benefícios adicionais ao organismo, contribuindo para aspectos como saúde intestinal, resposta imunológica, metabolismo, longevidade e qualidade de vida. “Hoje já observamos uma forte tendência de incorporação de ingredientes funcionais, como prebióticos, probióticos, pós-bióticos, compostos bioativos e novas fontes proteicas sustentáveis, sempre respaldados por pesquisas científicas que buscam comprovar sua eficácia e segurança”, detalha.

Outro avanço importante citado por Larissa é a evolução dos aditivos utilizados na nutrição animal. “Muitas vezes eles são associados apenas à conservação dos alimentos, mas hoje desempenham funções muito mais amplas. Os aditivos tecnológicos contribuem para preservar a estabilidade, a qualidade e a segurança do alimento; os aditivos nutricionais, como vitaminas, aminoácidos e minerais, garantem o adequado aporte de nutrientes essenciais; e os aditivos zootécnicos têm como objetivo melhorar parâmetros relacionados ao aproveitamento da dieta e ao desempenho dos animais, como a digestibilidade e a eficiência alimentar. Esse conjunto de tecnologias permite desenvolver alimentos cada vez mais completos, seguros e eficientes, agregando valor muito além da nutrição básica”, explica Larissa.

Na Poytara, essa é justamente uma das principais direções de desenvolvimento. “Buscamos formular alimentos que respeitem a fisiologia de cada espécie, oferecendo dietas equilibradas, ingredientes de elevado padrão de qualidade e tecnologias nutricionais que proporcionem benefícios reais para os animais. Nosso objetivo não é apenas nutrir, mas desenvolver formulações que promovam saúde, bem-estar e desempenho ao longo de toda a vida do pet. Além da alimentação, o segmento de tecnologia cresce rapidamente. Alimentadores automáticos, sistemas inteligentes de iluminação, filtragem e monitoramento da qualidade da água tornam o manejo mais eficiente e ajudam o tutor a manter um ambiente mais estável para os animais. Também observamos uma evolução importante na categoria de bem-estar, com produtos que enriquecem o ambiente e estimulam comportamentos naturais, reduzindo fatores de estresse e proporcionando condições mais próximas do habitat de cada espécie. Essa visão mais integrada, que une nutrição, tecnologia e manejo, representa uma das principais tendências para os próximos anos no mercado de pets não convencionais”, afirma a especialista.

PERFIL DO CONSUMIDOR

Hoje encontramos um consumidor muito mais informado e criterioso, garante Larissa. “Antes de comprar, ele pesquisa, acompanha especialistas, compara produtos e busca entender a composição dos alimentos, os ingredientes utilizados e os benefícios que eles podem proporcionar ao animal. Um dos grandes responsáveis por essa mudança foi a democratização do acesso à informação. A internet aproximou os tutores de conteúdos técnicos que antes eram restritos a poucos especialistas. Além disso, observamos o fortalecimento de comunidades extremamente organizadas em plataformas como Facebook, WhatsApp e fóruns especializados, onde aquaristas, criadores e profissionais compartilham experiências, discutem manejo, nutrição, equipamentos e soluções para os desafios do dia a dia. Essa troca constante de conhecimento elevou significativamente o nível de informação do consumidor e tornou as decisões de compra muito mais conscientes e fundamentadas”, destaca Larissa.

Ainda segundo ela, a Geração Z também impulsiona esse movimento por consumir informação de forma intensa e valorizar marcas inovadoras, transparentes e conectadas com temas como sustentabilidade e bem-estar animal. “No entanto, esse comportamento não está restrito aos mais jovens. No aquarismo, por exemplo, há um público extremamente fiel e experiente, formado também por pessoas que cultivam o hobby há décadas e possuem alto nível de conhecimento técnico. São consumidores exigentes, que acompanham lançamentos, testam novas tecnologias e buscam constantemente aprimorar seus sistemas e oferecer as melhores condições para seus animais”, acrescenta.

Larissa ainda cita outro fator importante: o crescimento do número de pessoas vivendo em apartamentos. “Espécies como peixes ornamentais, répteis e pequenos mamíferos se adaptam muito bem a esse estilo de vida. Em muitos casos, esses tutores concentram seus investimentos em poucos animais, priorizando alimentos de alta qualidade, equipamentos mais eficientes e produtos que promovam saúde, bem-estar e longevidade. Na nossa percepção, o consumidor de hoje não compra apenas um produto; ele compra conhecimento, confiança e credibilidade. Marcas que investem em pesquisa, inovação e comunicação técnica de qualidade tendem a construir relacionamentos mais sólidos e duradouros com esse público”, diz.

Paulo acredita que o perfil da pessoa que tem um pet não convencional é muito mais variável, do que o do mercado convencional, de cães e gatos, justamente pelos motivos que ele explicou acima, destes pets terem um gasto mais relativo e muito baixo em relação ao gasto que você teria se fosse alimentar um cão.

“Então, se eu tenho um alimento super premium que custa mais do dobro do que o alimento padrão, mas que protege muito mais o animal contra qualquer problema, e ele minimiza qualquer doença, óbito etc., e maximiza a produtividade, a performance do campo, isso faz com que as pessoas, mesmo de baixa renda, estejam dispostas a pagar essa pequena diferença mensal das rações, dentro desse consumo mínimo. Vale lembrar que um pássaro de algumas gramas, quando ganha campeonatos, torneios etc., ou quando ele é de origem de um pássaro campeão, ele pode custar várias dezenas de milhares de reais, e consumindo 5 g de alimento por dia. O mesmo ocorre com répteis, onde você tem mutações que são muito caras, ou coelhos e roedores, que aí entra uma questão até muito mais sentimental do que propriamente ecológica, ambiental ou financeira”, explica.

CENÁRIO ECONÔMICO E DESAFIOS

Paulo diz que a inflação e o cenário econômico atual não estão impactando sobre o consumo desses itens de alto valor, pelo menos no que tange ao segmento de alimentação. “Pelo contrário, a gente vê que o consumo de alimentos de alto valor está aumentando. Até porque fica cada vez mais óbvio que a alimentação à base de sementes não é a alimentação mais adequada para esses animais de estimação. Então, as pessoas cada vez mais estão deixando a alimentação tradicional para uma alimentação de alta performance. Vejo isso como um impacto muito pequeno”, opina Paulo.

Em relação aos entraves de crescimento que o setor vivencia, o consultor vê a informalidade como uma barreira.

“Este é um mercado ainda um pouco informal, muito pouco vigiado pelas autoridades sanitárias e que permite uma série de falsas alegações, e que, inclusive, é comum, muitas vezes, encontrarmos players que sequer têm registro no mapa e que conseguem vender seus produtos em pequenas lojas, principalmente no interior, isso é muito comum ainda. Então, vejo que a informalidade é o maior obstáculo, infelizmente, que a gente encontra hoje”, finaliza.

Larissa destaca que em momentos de maior pressão econômica, o consumidor naturalmente se torna mais seletivo. “No entanto, o mercado pet tem demonstrado uma característica bastante interessante: os responsáveis por animais de estimação tendem a ajustar o consumo, mas dificilmente abrem mão da qualidade quando percebe valor no produto”, diz ela.

Ainda segundo Larissa, hoje existe uma compreensão muito maior de que uma alimentação adequada influencia diretamente a saúde, a longevidade e o desenvolvimento dos animais.

“Por isso, muitos consumidores entendem o alimento premium como um investimento, e não apenas como um custo. É importante destacar que, quando falamos em alimentos super premium, o valor não está apenas no preço da embalagem, mas na qualidade da formulação. Esses produtos são desenvolvidos com ingredientes de maior valor biológico, melhor digestibilidade e um equilíbrio nutricional mais preciso. Como consequência, a quantidade diária oferecida ao pet costuma ser menor, já que uma porção reduzida é suficiente para atender às suas necessidades nutricionais. Na prática, isso melhora o aproveitamento dos nutrientes, reduz o desperdício e pode tornar o custo-benefício mais interessante ao longo do tempo, mesmo que o investimento inicial seja maior”, comenta.

Sobre os entraves que impedem que o setor cresça mais, Larissa acredita que o Brasil possui um enorme potencial de crescimento, mas ainda enfrenta desafios importantes. “Um deles é o alto custo de desenvolvimento de produtos com maior nível tecnológico. Ingredientes funcionais, matérias-primas importadas, processos produtivos mais sofisticados e investimentos constantes em pesquisa elevam significativamente os custos de inovação. Outro desafio está na educação do consumidor. Embora a informação esteja cada vez mais acessível, ainda existe um grande trabalho de conscientização sobre a importância da nutrição específica para cada espécie e sobre os benefícios que produtos de maior qualidade podem proporcionar ao longo da vida dos animais. Também é fundamental ampliar os investimentos em pesquisa nacional. O Brasil possui profissionais altamente qualificados e uma indústria pet extremamente dinâmica, capaz de desenvolver soluções competitivas e inovadoras. Na Poytara, acreditamos que inovação não deve ser encarada apenas como lançar novos produtos, mas como compreender profundamente as necessidades de cada espécie e transformar esse conhecimento em soluções que realmente façam diferença na rotina dos tutores. É essa filosofia que orienta nosso desenvolvimento e que, na nossa visão, continuará impulsionando a evolução do mercado nos próximos anos”, finaliza.

Por Samia Malas

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